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À conquista de um lugar nas Artes Plásticas
com o corpo inteiro no Desenho

Manuela Synek (*)

 

Está actualmente a decorrer até meados de Abril uma exposição individual do artista plástico António Canau na Galeria Municipal Augusto Cabrita no Seixal. Este acontecimento faz parte da «Bienal Internacional de Medalha Contemporânea do Seixal», como uma iniciativa paralela à mesma.

Trata-se por um lado, de uma mostra de um artista plástico que participa com regularidade nesta Bienal e por outro, existe a relação estreita entre a medalha como escultura à escala da mão com a escultura de grandes dimensões e a referência à tridimensionalidade nos trabalhos de gravura.

Podemos observar neste conjunto expositivo, uma vintena de obras na área da escultura e da gravura. Apesar de não figurarem concretamente trabalhos de desenho do artista nesta mostra, sabemos através de todo o seu percurso artístico, que é nesta disciplina que se encontra o cerne das suas composições no campo estético, quer seja na gravura, na escultura ou na medalha/objecto. O desenho é de facto a matéria-prima da sua obra. É daí que lhe vem o lado mais inspirador e imaginativo. Aliás se observarmos atentamente a mostra, reparamos que o desenho está vivamente presente nestas peças, estando subjacente às linhas definitivas e seguras destes trabalhos.

Na gravura há a salientar dois trabalhos datados de 2006, o primeiro intitulado «Tie!?» tratando-se de uma gravura digital feita a partir de um desenho de 1997. Esta versão digital foi recentemente seleccionada para uma exposição colectiva em 2008, na «Bienal Internacional de Gravura Experimental», na Roménia. Existe uma versão em pequeno formato, esta «S/Título» de 2001, que esteve exposta em Azambuja, na Galeria da Biblioteca Municipal, em 2003/04, integrada numa outra Individual do escultor denominada «Canau/Interacções Metamórficas» e outra de grande formato de 2006, que esteve na “Bienal Internacional de Gravura em Ponta Seca” em Uzice na Jugoslávia em 2007.

A segunda gravura a destacar sob o título «The Moon in the Swallow’s Eye over the Horizon Line» teve como referência a andorinha que em termos de forma sofreu as habituais reestruturações – metamorfoses e desconstruções formais que o artista utiliza permanentemente no seu método de trabalho. Esta composição teve início em termos de pesquisa em 1984. Em 1991 foi realizado o desenho que está na origem do diptico de 1997 em serigrafia à base de tintas de água que fez na Slade School of Fine Art. Existem duas versões em 2006, uma do diptico e a outra que está actualmente nesta exposição. Esta versão actual que está exposta é realizada na técnica de gravura em relevo, mas A. Canau em vez de aplicar os materiais convencionais, madeira ou linóleo, utilizou vidro acrílico como material da matriz. Esta gravura esteve figurada no ano passado, na «Bienal Internacional da Gravura e das Novas Imagens de Sarcelles», em França.


«O meu mundo mítico funcional» (cit. A. Canau)


Escolhi estas duas peças, porque são dois exemplos significativos e representativos do seu processo, pelo qual todas as formas bi e tridimensionais passam. No seu conjunto, essas formas apresentam aquilo a que António Canau chama de «O meu mundo mítico funcional». Mostrando claramente a intenção do autor em tentar ir buscar os seus trabalhos anteriores e mais antigos, para depois reformulá-los, actualizá-los, numa reconstrução em pequenos ou ínfimos detalhes, alterando o inicial proposto em certos pormenores, acrescentando outros elementos, transformando no fundo a composição «primitiva» ou inicial, numa espécie de subversão, que o autor faz com o seu próprio trabalho, para daí resultar frequentemente numa autêntica depuração das linhas desenhadas na composição final.

Isto é conseguido, numa constante mutação delineada e projectada de uma forma permanente, e quase obsessiva no caminho que tem vindo a traçar desde os anos 80. No fundo isso demonstra que nunca está inteiramente satisfeito com aquilo que se propõe elaborar. Há sempre algo a acrescentar ou a retirar. Qualquer destas obras apresentadas nas suas composições existe uma série de leituras simbólicas em várias perspectivas do ponto de vista visual, os próprios títulos quando são atribuídos às peças (normalmente e intencionalmente em língua inglesa porque se adequam com mais precisão, a mensagem que o autor quer, e pretende transmitir), também podem ter essa função, como é o caso das duas gravuras referidas, realçando-se aqui uma associação de ideias, jogando com o aspecto formal das imagens, oferecendo no sentido metafórico, um duplo significado. Na «Tie!?», o termo indica gravata, laço e nó, mas aqui o criador quis simbolizar o conceito no sentido figurado mais vasto, como o aperto, o amarrar, o juntar, o ligar.


Uma solução formal, imbuída de um certo misticismo


Na gravura «The Moon in the Swallow’s Eye over the Horizon Line», o sentido inicial tem a ver com um simples apontamento de uma andorinha esquematizada e esboçada, onde a Lua também está presente, no olho da ave sobre a linha do horizonte. O autor neste trabalho inspirou-se no conto «Nossa Senhora das Andorinhas» de Marguerite Yourcenar, depois de o ter lido em 1988, direccionando assim para a actual solução formal, imbuída de um certo misticismo. Nesta versão as linhas estruturais atingiram uma atitude inteiramente minimal, numa extrema depuração, onde essa linha de horizonte que atravessa a composição assume um grande despojamento, o que não acontecia no primeiro desenho.

Por detrás de cada obra vislumbra-se constantemente, uma geometria acentuada das formas, onde as linhas surgem numa teia enredada, como se de uma dança se tratasse. São as linhas que configuram aquilo que o autor quer representar, anotar, apontar ou apenas sugerir. São elas que desempenham o papel principal no seu trabalho. A partir daí é a problemática da simetria que surge intensamente, numa volumetria plena de manchas, num jogo contrastante entre o preto e o branco, em zonas mais escuras e outras mais claras e transparentes.


A primeira vez que lhe chamaram escultor


Nas peças de escultura que se encontram actualmente expostas, há a relevar alguns dos seus expressivos trabalhos que se encontravam inicialmente em barro, datados dos anos 80, que o artista aproveitou esta ocasião para os passar a material definitivo o bronze, como foi o caso da «Matança do Porco», em barro seco, de 1986. Há a tendência de muitas dessas obras já não resistirem ao tempo, dado terem sido concebidas num material precário.

Nos anos 80, a título de curiosidade, foi com uma dessas primeiras peças que se podem observar nesta exposição, que num dia, António Canau, então aluno do 1º ano, apresentou e mostrou ao Mestre - Professor Escultor Jorge Vieira (o qual foi seu Professor de escultura no 1º e 4º Anos do Curso de Escultura na Ex.-Exbal), dizendo-lhe que pretendia e gostaria de ser escultor, e o Professor com o seu temperamento aberto, vivo e directo com os seus alunos, respondeu-lhe: «Tu já és escultor!». Este episódio marcou-o definitivamente, dado que foi a primeira vez que lhe chamaram escultor.

Esta mostra pode assim também funcionar como uma pequena retrospectiva de vinte e quatro peças no seu total, como uma síntese do seu percurso plástico e artístico, abrangendo um período de vinte e dois anos de trabalho, com peças que vão de 1984 a 2006. Estão presentes algumas das temáticas abordadas pelo artista mas, essencialmente tentou construir um conjunto coerente, no qual se notasse a forma como as coisas se têm encadeado e relacionado umas nas outras. Realçando-se por um lado a diferença e o aspecto evolutivo do seu trabalho e por outro a sua continuidade.


A sua formação académica é sólida. Tem tido um percurso coerente através de um processo de maturação, onde a sua actividade artística é acompanhada, com a área da investigação de estudos teóricos e práticos, na área da gravura e do desenho.


A. Canau adquiriu uma maior visibilidade ao nível internacional do que em Portugal. Tem exibido o seu trabalho numa frequência assinalável, na participação com regularidade em diferentes Exposições Colectivas e Bienais Internacionais, sobretudo na área da Gravura e da Medalha Contemporâneas, entre as quais em França; Itália; Jugoslávia; Estados Unidos; Canadá; Bélgica; Mónaco; Japão; Eslovénia; Polónia; Taiwan; Hungria; Inglaterra; Espanha e Escócia. É membro da Fidem/Fédération Internacionale de la Médaille desde o ano de 2005.

Contudo, em Portugal, participou ultimamente na IV Bienal Internacional de Medalha Contemporânea do Seixal em 2005 e nas «III e IV Bienais da Medalha Contemporânea Dorita Castel Branco», em Sintra, respectivamente em 2005 e 2007, onde nesta última obteve uma Menção Honrosa. Quanto à área da escultura é exposta e figurada com menos frequência. No domínio dela, António Canau tem tido alguns momentos de interregno. Nem sempre existem espaços propiciantes e aliciantes para o convite à realização de trabalhos escultóricos. Surgindo intervenções pontuais.

Participou no ano passado na «Escultura Livre – Exposição de Escultura ao Ar Livre», no Parque de Sinçães, em Vila Nova de Famalicão, com uma escultura de grande porte, com dois metros de altura, em ferro pintado e aço, intitulada «Femina, sob Suposta Influência da Lua». Esta peça irá ser exposta brevemente em Loures. Esta obra esteve na base de trabalho de um dos seus desenhos, aliás como parte das suas peças. A ideia de passar para a escultura muitos dos seus desenhos realizados, foi uma intenção, um desejo e uma sugestão já mencionados pelo pintor Fernando de Azevedo, depois de ter conhecido bem o trabalho deste artista plástico. Expõe individualmente desde o ano de 1986.

Aproveito para mencionar algumas dessas exposições, em que a documentação ainda vem registada com o nome de Canau Espadinha, mais conhecido até então: na Galeria de Arte Praça do Mar, em Quarteira, em 2002, um conjunto intitulado «Genesis Apersonal Iconography», sendo trabalhos significativos no domínio da Escultura e da Gravura; em Londres, na «The Slade School of Fine Art 1997 Degree Exhibitions»; uma mostra de Gravura no Club Azambujense em 1990-91; no Museu Municipal de Faro, uma Exposição de Artes Plásticas de escultura, desenho e gravura em 1991; em Alverca na Galeria Municipal de Exposições - C.M. de Vila Franca de Xira (1995).


O tempo é um dos dramas na escultura

O caminho persistente de António Canau tem sido demorado e lento. Quando projecta uma obra só depois de alguma consistência é que envereda por aquilo que se propõe realizar. No campo da escultura, só depois das ideias estarem muito amadurecidas e pormenorizadas, é que resolve pisar um terreno sólido. E é assim que deve ser, porque esta área exige de facto muita segurança, uma decisão acertada para escolher o seu tratamento, necessitando de uma planificação estudada até ao ínfimo pormenor, sobre a escala, as dimensões, a escolha dos materiais e o espaço que a vai acolher e receber. O seu tempo, temperamento e comportamento adaptam-se e adequam-se ao tempo da escultura. Porque a escultura é muito lenta e demorada. Num determinado sentido, o tempo é um dos dramas na escultura. Até o pequeno objecto tem um tempo de fazer, que envolve toda uma série de processos que criam situações difíceis, porque durante a execução, os escultores, em princípio, já estão noutra. É a velocidade do pensamento. No fundo fazer escultura não é o mais importante, mas sim, ficar a fazer escultura.


Variações sobre o mesmo tema

Trata-se de um artista que se caracteriza por se encontrar a realizar uma permanente e constante pesquisa, num contínuo experimentalismo, tanto ao nível temático como no tratamento plástico no desenho, na gravura, na escultura e na medalhistica. Trabalha por ciclos seriados e constrói variações sobre o mesmo tema. Vai buscar uma temática que à partida já é singular, num ciclo do estudo de animais, dentro de um imaginário simbólico, que vem realizando há cerca de vinte anos, como as andorinhas; os pombos; os gafanhotos; os porcos; as cabeças de galgos e de lebres em desenhos s/papel; os galgos em água-tinta s/ferro; os cavaleiros em desenhos a carvão s/papel; os galos em ponta seca s/alumínio; cavalo galo em gesso c/patine; os cães; os anuros ou batráquios de forma atarracada, desprovidos de cauda quando adultos, como o sapo e a rã; os cavalos; os touros, o bull trabalhado em ponta seca s/acrílico; o cão do minotauro; «Swan Horse» numa série de estudos em técnica mista, em xilogravura e cartão tintado de nome «Flutuantes Enigmas». Algumas dessas gravuras estão expostas nesta mostra. São da sua preferência e particularmente centrado os animais mitológicos, num estudo minucioso e aprofundado, como num exercício desenhando esses elementos iconográficos até à exaustão, num apurado sentido das formas até chegar aquilo que deseja. Para o artista, em qualquer trabalho, ele começa a desenhar numa expressão real para depois depurar. Entretanto inicia frequentemente o desenho do animal, do bicho com a posição de frente. Na altura de depurar, o escultor inicia a tarefa de metamorfosear alguns elementos que estão inseridos na composição e transforma-os, num processo complicativo, criando alguma tensão. Precisamente quando se encontra a fazer a depuração, a composição encontra-se então de grande pureza formal, e, de uma enorme simplicidade, ele inicia aí o processo de metamorfosear, distanciando-se gradativamente do real, onde o animal é uma mistura de representações, e por vezes já não é reconhecível, no sentido figurativo. Destaco uma litografia sob o título de «Mask Horse» de 1990, onde António Canau obteve o Prémio Juventude na «III Bienal de Gravura da Amadora», em 1992.


O mais importante é ficar a fazer escultura

Há uma peça marcante, original e plena de impacto visual e plástico, do escultor sobre a temática dos «Anuros», em gesso c/patine, numa instalação que esteve exposta no espaço «Ch cadi nhas» da Esbal em 1988, onde António Canau apresentou-nos uma obra constituída por dois corpos distintos. Esses dois «seres» levantados verticalmente de tamanho humano, estão agarrados e colados um ao outro, através das cabeças e das mãos, o que torna as duas peças unidas funcionando como uma só. O trabalho escultórico foi executado com o mesmo tratamento, formando uma unidade no seu conjunto de algo de monstruoso, obtendo um aspecto carcomido, disforme, em que cada pormenor anatómico não é visível. Isto é, o tratamento dos corpos nus são irregulares à semelhança ao tronco duma árvore no que diz respeito à textura tratada. Tecnicamente, o artista tira partido da deformação e irregularidade dos corpos, conferindo-lhes uma patine ajustada, para lembrar os batráquios ou anuros, proporcionando uma textura particular que irrompe numa força mítica e num composto estranho e surpreendente. São dois seres aquáticos que já não habitam o nosso planeta terrestre, mas, que já habitaram em tempos longínquos, colocam-se assim, em atitude superior, unidos um ao outro, pela cabeça e pelas mãos. Os dois corpos estão postados de perfil para o observador, talvez para nos informar de uma forma mais clara, aonde está a ligação e os pontos de contacto. Entretanto, através de qualquer fundo que delimita as duas esculturas, cria outras formas, deixando, neste sentido, de existir fundo, reconstruindo outras formas. Podemos referir que se trata de dois corpos que passaram pelo planeta e deixaram, libertaram-se do mundo terrestre, para tentarem voar mais alto. Os únicos resíduos que conservaram da terra foram a sua estrutura, numa ligação sentimental e intelectual entre eles, e a posição vertical, afastando-se consideravelmente da concepção e aparência humanas.


«O desenho é uma espécie de espelho dentro do qual o autor se descobre» (cit. A. Carneiro)


Tanto na Gravura, na Litografia, como na Escultura, o desenho em António Canau está sempre presente, por detrás das finalizações. O desenho surge neste escultor com especial destaque, emergindo como pura evidência do processo criativo. «O desenho é uma espécie de espelho dentro do qual o autor se descobre», recorda o escultor Alberto Carneiro, que sempre lembrou esta vertente, aos seus alunos na Faculdade de Arquitectura do Porto, como Professor, ao longo de vinte e nove anos de ensino. Entendendo o desenho como gesto/acto poético, que não só representa algo, como serve de ponto de partida a outras coisas e, propicia ainda a interrogação. Aliás, o desenho é uma arte de que a importância foi sempre maior. Nela, os artistas enunciaram muitos dos valores que lhes foram, e são, mais caros.

O desenho traz no campo visual, uma permanente confidência e uma espontaneidade que não é fácil encontrar nas outras disciplinas. Lado a lado com o desenho entendido como um fim em si mesmo, outros modos de o praticar acontecem. E um, não menor, é o de o exercer como registo auxiliar das obras que o artista se propõe realizar, utilizando seguidamente materiais definitivos e consistentes. O desenho permite, então surpreender o processo criativo em momentos de intimidade que, de outra maneira, permaneceriam desconhecidos. É reconhecido que os escultores são exímios a desenhar. No desenho, os escultores encontram um meio eficaz para se abrirem, para dizerem como se vai definindo a consciência de um espaço a projectar, ou de um volume a esculpir.


O desenho permite-lhe um encontro antecipado

Destaca-se no trabalho de António Canau que nos projectos que realiza, o desenho é também um instrumento de investigação, como escrita específica que permite abordar questões de espaço, com um leque de referências que vai do real ao virtual, da utopia ao pragmatismo. O desenho é um instrumento puro, sempre em busca de um ascetismo ao qual sempre se rende. Ele é despojado de todo o acessório. O seu desenho conduz-nos através de registos firmes, mas com uma ductilidade aberta às sensibilidades mais exigentes.

O fascínio do desenho leva-nos a crer que ele está sempre presente, mesmo quando a peça já está trabalhada em material definitivo. Este artista faz dos próprios desenhos nos seus trabalhos, uma incitação constante, sendo por certo, momentos de autêntica reflexão. É nas linhas do desenho que estão essencialmente a sua identidade, num respirar contínuo. Desenha assim, até à exaustão os mesmos elementos, numa necessidade de representar várias vezes o mesmo ícone mas com subtis alterações, até o artista encontrar finalmente aquilo que procura. Relativamente a este assunto, explica António Canau que às vezes demora anos, meses a fio a trabalhar o mesmo elemento iconográfico.

Pratica o desenho também como uma disciplina e para exercitar. Esta expressão plástica é para o artista fundamental, sendo igualmente a produção duma sensação de liberdade, o desenho proporciona desta forma, o cortar das amarras numa sensação única. É assim um escultor que desenha compulsivamente, e a sua preocupação neste momento, é também registar em suporte documental, com excepção daqueles desenhos que o criador destrói e destrói seguramente muitos, aí o artista opta deliberadamente por não ficar com os registos desses desenhos, sendo totalmente eliminados, perdendo-se assim qualquer vestígio e rasto deles. No que diz respeito à área da gravura, embora ela nunca tenha ultrapassado o estatuto de «arte menor» na Historiografia, contudo actualmente as mentalidades estão a mudar quanto a este propósito. Talvez por haver grandes e importantes artistas que a utilizam de forma intensiva. Será assim uma forma de recordar e de elevar uma arte que está um pouco esquecida.


«Reflexo da minha vivência no Ribatejo» (cit. A. Canau)


Realizou alguns trabalhos no domínio da arte pública. São da sua autoria um Grupo Escultórico em bronze, aço e calçada portuguesa intitulado «Monumento ao Trabalhador Agrícola», de configuração abstracta, datado de 2003, que se encontra na rotunda interior da entrada poente de Azambuja. Venceu em 1999 o concurso organizado pela Brisa para na realização das esculturas, para a estação de serviço de Aveiras de Cima, nos sentidos Sul/Norte e Norte/Sul na auto-estrada do Norte. Quanto a este grupo escultórico concebido em aço, de grande porte, retratam duas «Cabeças de Touro e de Cavalo», tema já recorrente na sua obra, no entanto, ele refere que teve como objectivo fazer uma nova representação iconográfica sobre o touro e o cavalo, e penso que conseguiu encontrar uma solução inovadora e original.

O que se torna difícil, dado que há uma panóplia de artistas contemporâneos, sobretudo na área da pintura e do desenho, que dedicaram uma série de obras artísticas ao touro e ao cavalo. A preocupação do escultor foi desenvolver o tema com um tratamento diferente e por sua vez criativo. Estas duas peças se forem percepcionadas num ângulo demasiado próximo do observador, o conteúdo das duas cabeças vai-se desvanecendo, até ficar um espaço vazio e inócuo, onde os contornos se tornam pouco a pouco indecifráveis. Isto significa que nesse amplo espaço, as nuvens do céu rasgam e invadem livremente esse espaço, passando a desempenhar o principal papel, ocupado pelas duas cabeças de animal, o touro surge trabalhado de frente e o cavalo aparece de perfil.

Há sem dúvida, nestas duas composições um jogo perceptual e plástico, sobretudo entre forma e fundo, interior/exterior, espaço contornante e central, que o artista consegue solucionar e construir, através do recorte das silhuetas dos dois animais, ambos encontram-se no plano central, formado por varões de aço, impondo uma técnica de ilusão, consoante a distância ou a proximidade do olhar para a obra, revelando soluções visuais diferentes. Forma e fundo comparecem aqui para estabelecer uma rede de influências codificadas de uma forma recíproca. Em 1993 venceu o concurso para a realização dos baixos-relevos do novo edifício da Bolsa de Valores de Lisboa, com dois trabalhos em bronze e em gesso, que foram colocados respectivamente sobre a porta e o hall de entrada. Um faz parte da série «Flutuantes Enigmas» e o outro representa um Leão.


«São as pessoas que fecham um ciclo» (cit. A. Canau)


António Canau está a tentar conseguir conquistar um lugar nas artes plásticas, alcançando desde muito cedo, um estilo e uma linguagem próprias, muito pessoal. No seu trabalho final, de obras com materiais definitivos em bronze e aço, surge sempre e continuamente uma pesquisa, por detrás da peça definitivamente acabada, que nunca quis abandonar a área do desenho e do seu respectivo poder de representação, num acto deliberado, tirando assim partido e fazendo sentido, na maior parte dos casos, da força pujante da linha e do seu traçado expressivo e rigoroso.

Num universo, entre animais, bichos e seres humanos são os elementos que o criador vai buscar, para os transformar até à exaustão, em compósitos fragmentados de uma forma sui generis, sugerindo frequentemente a relação e aproximação entre os bichos e a figura humana. A sua envolvência é sugestionada, por vezes, de raíz telúrica, fazendo impulsionar a força da terra nesses seres metamorfoseados, que se encontram plenos de energia interior. Consegue, desta forma, permanecer numa fase intermédia entre a figuração e o abstraccionismo, dentro duma iconografia de teor simbólico, que rompe de um figurativo, sucedendo-se depois as metamorfoses.

A partir da temática escolhida, desenvolve nas três áreas: escultura, gravura e desenho, um trabalho de persistência cuidada e de aperfeiçoamento, cheio de sensibilidade e de talento. O próprio escultor confessa que o significado que dá à manifestação artística que desenvolve: «É fruto das minhas vivências e da minha capacidade de representação; actuando as primeiras como filtro do que eu assimilo e a segunda, resultado da diferença entre aquilo que quero fazer e o que consigo. Levando-me isso a uma incessante necessidade de superação dessas limitações». Para António Canau, as pessoas que observam e apreciam as suas obras e ainda aquelas que as adquirem: «São elas que fecham um ciclo. É para elas que o meu trabalho é produzido: sendo a arte comunicação. Ela só tem sentido com a existência do público - o receptor. Representando também a aceitação da opção estética do artista». Em António Canau, a expressividade do risco e a construção plástica dos volumes na obra artística, andam desta forma seguramente de mãos dadas.

 Manuela Synek
Março 2008

(*) : Historiadora e Crítica de Arte